Motoristas improvisam manobras perigosas para driblar a falta de opções na Avenida do CPA; infrações se multiplicam e colocam vidas em perigo.
Em nome da modernidade e da eficiência do transporte público, o cotidiano de milhares de cuiabanos que trafegam pela movimentada Avenida Historiador Rubens de Mendonça, mais conhecida como Avenida do CPA, tornou-se um teste diário de paciência e, alarmantemente, de sobrevivência. As obras de implantação do sistema BRT (Bus Rapid Transit) impuseram uma mudança radical na paisagem e no fluxo da via, suprimindo aproximadamente 62% dos retornos. O que era 16 opções ao longo de 7,8 km, agora se resume a apenas seis.
A falta de alternativas acessíveis tem sido o combustível para uma sequência perigosa de infrações. Sem a paciência para percorrer longas distâncias até o próximo retorno legal, motoristas e motociclistas têm transformado passarelas de pedestres em rotas improvisadas. Na manhã desta segunda-feira (6), uma equipe de reportagem registrou, em apenas 30 minutos, mais de 12 manobras irregulares no trecho entre o McDonald’s e o antigo prédio do Procon-MT. O cenário é de desrespeito generalizado à sinalização e um risco palpável à segurança de todos.
Em um dos flagrantes, a imprudência quase terminou em colisão. Um condutor, ao cruzar abruptamente as faixas centrais por uma passarela, forçou o motorista que vinha atrás a frear bruscamente, evitando um acidente por pouco. Poucos metros adiante, na travessia em frente ao McDonald’s – onde um semáforo permanece desativado –, motociclistas replicavam a ação perigosa, usando o local como um retorno não autorizado.
Para quem precisa mudar de sentido nesse trecho, as opções legais são escassas e distantes: utilizar o viaduto da Sefaz, para retornar em direção ao Centro, ou dirigir até as proximidades do Crea-MT para quem segue sentido CPA. Uma logística que, na prática, se traduz em minutos preciosos perdidos no trânsito e em uma crescente sensação de frustração.
José Lima, 55 anos, taxista que conhece como ninguém as ruas da capital, vê a situação com a preocupação de quem depende do trânsito para o sustento. “Entendo o transtorno, a obra é para melhorar, mas a imprudência aqui virou regra. É um perigo constante”, desabafa. “É preciso que a Semob veja isso, seja com agentes, com câmeras, mas algo precisa ser feito antes que uma tragédia aconteça.”
Adaptação ou Caos? A Nova Regra Imposta pelo BRT
A justificativa para o fim dos retornos é definitiva. Em audiência pública no mês passado, o secretário adjunto de Obras Especiais da Sinfra-MT, Isaac Nascimento Filho, deixou claro que o novo modal exige avenidas com o mínimo de interferências. A solução apresentada aos motoristas são os chamados “laços de quadra”.
Na prática, isso significa que, em vez de um retorno direto, o condutor deve “contornar o quarteirão”. Um exemplo é o motorista que, no CPA sentido Centro, precisa acessar a rua Mestre Teodoro Lourenço, virar à esquerda na rua Conselheiro Dr. Ênio Vieira e, só então, cruzar a avenida principal pelo semáforo. Uma operação que, embora planejada para ser segura, na correria do dia a dia, está sendo substituída por manobras arriscadas que desafiam a lógica do trânsito e colocam vidas em jogo.
Enquanto a obra não é concluída, a Avenida do CPA se tornou um palco de tensão, onde a pressa e a insatisfação disputam espaço com a promessa de um futuro transporte mais eficiente. A população aguarda, não apenas a conclusão do BRT, mas também medidas imediatas que restabeleçam a ordem e a segurança em uma das principais artérias da cidade.
Foto: Emanoele Daiane
Informações: GD