A discussão sobre a “adultização” de crianças ganhou novo fôlego na sociedade brasileira, impulsionada por denúncias e análises que buscam compreender as dinâmicas complexas que afetaram a infância no século XXI. O youtuber Felipe Bressanim, conhecido como Felca, trouxe à tona a questão em seu vídeo “Adultização”, denunciando a exploração de crianças e adolescentes em redes sociais, com uma exposição sistemática a conteúdos inapropriados. O debate, no entanto, mostra-se multifacetado, com diferentes perspectivas sobre as causas e consequências dessas consequências.
A repercussão da denúncia de Felca acendeu o alerta sobre a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre o assunto. De acordo com reportagens da Folha de S. Paulo, o Ministério Público tem intensificado investigações sobre influenciadores digitais que utilizam crianças em conteúdos inadequados, envolvendo exploração da imagem e exposição a riscos diversos. O caso ressalta a urgência de mercados internacionais e fiscalizar o conteúdo gerado para o público infantil, como relatado pelo jornal O Globo.
Em contrapartida, o professor de música clássica pela USP e pesquisador do funk, Thiago de Souza, conhecido como Thiagson, trouxe uma perspectiva crítica ao debate, expandindo-o para além do ambiente digital. Em suas redes sociais, Thiagson argumenta que a “ausência de infância” seria um termo mais preciso para descrever a realidade de muitas crianças, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social. Em um vídeo que traça um paralelo entre o caso de Felca e a exposição de crianças no funk, Thiagson critica o termo “adultização”, argumentando que a infância é uma construção social que exige investimento financeiro e cuidado coletivo. Ele cita exemplos de artistas mirins que, ao longo dos anos, geraram polêmica por suas letras e performances, levando o Ministério Público a investigar os casos.
A fala de Thiagson ecoa a realidade de muitas crianças nas periferias, onde a pobreza e a falta de acesso aos direitos básicos roubaram a infância. O professor destaca que, para muitas crianças, ter uma infância é um luxo. Essa visão é corroborada por dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que revelam a alta incidência de trabalho infantil e outras formas de exploração em comunidades de baixa renda no Brasil.
A secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, Jandyra Uehara, endossa a necessidade de ampliar o debate para outras formas de exploração infantil. Em entrevista, Uehara enfatiza que a sociedade mercantiliza a infância, transformando crianças em “miniadultos” em diversas dimensões. Ela reforça a posição da CUT em defesa dos direitos da infância e contra qualquer forma de mercantilização.
A Procuradora do Trabalho Luísa Carvalho Rodrigues, Coordenadora Nacional da Coordenação do Ministério Público do Trabalho (MPT), destaca que o enfrentamento da exploração infantil exige a ampliação de políticas públicas, a garantia de renda às famílias e o fortalecimento da rede de proteção. O MPT tem atuado na responsabilização de exploradores, na tentativa de acordo com plataformas digitais resistentes à proteção infantil e na promoção de programas como o MPT na Escola, que já alcançou mais de 1 milhão de crianças. A atuação do MPT é fundamental para combater o trabalho infantil, a exploração sexual e outras formas de violência contra crianças, conforme reportagens da Agência Brasil.
Foto: Reprodução