Dados de janeiro a outubro mostram que 45 mulheres foram assassinadas por companheiros ou ex; caso mais recente, em Nova Lacerda, expõe a repetição de uma tragédia anunciada.
A faca, objeto banal da vida doméstica, tornou-se o instrumento de morte para quatro em cada dez mulheres vítimas de feminicídio em Mato Grosso este ano. Um levantamento realizado pelo Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual (MPMT), revela um retrato sombrio da violência de gênero: de janeiro a outubro, 45 mulheres foram assassinadas por seus companheiros ou ex-parceiros. Desse total, 20 – o equivalente a 40% – foram mortas com armas brancas, como facas.
Os números ganham rosto e história no caso mais recente, registrado na última terça-feira (14) em Nova Lacerda, a 542 km da capital. Gabriella da Fonseca Moura, de 36 anos, foi assassinada a facadas pelo ex-marido, Rafael Rodrigues, de 32. A tragédia, porém, não foi súbita. Era uma sentença anunciada.
De acordo com o relato da filha de Gabriella à polícia, a mãe era vítima constante de ameaças. A perseguição culminou na noite do crime, quando Rafael invadiu a residência armado com uma faca e uma corda – esta última, segundo as investigações, com a intenção de amarrar os filhos da vítima. Durante o ataque, ele golpeou Gabriella ao menos duas vezes. Na tentativa desesperada de salvar a mãe, os filhos travaram uma luta corporal com o agressor, que também saiu ferido.
A história de Gabriella é um triste testemunho de um sistema que, por vezes, falha em proteger. Antes de ser silenciada para sempre, ela havia registrado aproximadamente 12 queixas contra o ex-companheiro, evidenciando um longo histórico de violência que terminou da forma mais trágica possível.
O levantamento do Observatório Caliandra detalha outras formas brutais que ceifaram vidas: 16 mulheres foram executadas a tiros, cinco foram estranguladas, três mortas com objetos contundentes e uma foi queimada.
O mapa da violência contra a mulher no estado se espalha por diversas cidades. Sinop e Cuiabá lideram este ranking macabro, com quatro feminicídios cada. Várzea Grande, na região metropolitana, registrou três casos. Cidades como Sorriso, Rondonópolis, Nobres, Lucas do Rio Verde e Cáceres aparecem em seguida, com dois casos cada. A lista segue por mais 23 municípios, mostrando que o problema é disseminado, do interior à capital.
Por trás dos números, uma motivação comum e arraigada: ciúmes, a incapacidade de aceitar o fim do relacionamento e um profundo menosprezo pela vida e integridade das mulheres.
Foto: por ASSESSORIA MPMT
Com informaçoes: Reporter MT