Enquanto cena foi lida internacionalmente como gesto diplomático, parlamentares aliados de Bolsonaro em Mato Grosso destacaram trechos do discurso de Trump que atacam o Judiciário brasileiro. Especialista vê tentativa de manter narrativa de conflito institucional.
A cena do abraço aparentemente amistoso entre o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nos bastidores da 80ª Assembleia Geral da ONU em Nova York, foi recebida com ressalvas e interpretações estratégicas por deputados estaduais da ala bolsonarista em Mato Grosso. Para esses parlamentares, o gesto de cortesia não apaga o teor das críticas feitas por Trump ao governo brasileiro e ao seu sistema de Justiça durante seu discurso no mesmo evento.
A reação dos parlamentares se concentrou em compartilhar massivamente nas redes sociais fragmentos específicos da fala de Trump, frequentemente com a mesma identidade visual, destacando pontos como “censura, repressão, corrupção judicial e perseguição a críticos políticos” no Brasil. O deputado José Medeiros (PL), por exemplo, questionou a postura do governo Lula com a frase: “Vai agir, pelo menos em uma reunião, como presidente ou vai preferir manter a narrativa sem sentido?”.
A Reunião Marcada e a “Química” de 39 Segundos
Em sua fala na ONU, Trump confirmou um encontro com Lula para a semana seguinte, destinado a discutir as retaliações comerciais aplicadas pelos EUA, que incluem uma tarifa de 50% sobre alguns produtos brasileiros. O ex-presidente americano descreveu a breve interação com Lula de forma positiva: “Tive uma química excelente com o presidente brasileiro, que pareceu um cara muito agradável. Ele gosta de mim e eu gostei dele. Por 39 segundos, tivemos uma ótima química, e isso é um bom sinal”. Fontes do Palácio do Planalto confirmaram a agenda, mas não detalharam se será presencial ou virtual.
No entanto, os bolsonaristas optaram por minimizar essa narrativa de aproximação. O coronel Assis (União MT) destacou em suas redes: “Trump denuncia censura no Brasil. Trump afirma que impôs tarifas ao Brasil porque o país está perseguindo cidadãos americanos”. Já o deputado federal Rodrigo da Zaeli (PL) compartilhou outro trecho, no qual Trump afirma: “O Brasil está indo mal, e só irá melhorar quando trabalhar em cooperação com os Estados Unidos […] Sem nós, eles fracassarão”.
Análise: O Discurso que Alimenta a Polarização
Para a cientista política Christiany Fonseca, a postura de Trump e a forma como foi repercutida pelos bolsonaristas refletem um jogo político mais amplo. “O gesto de Trump em relação à Lula gera um desconforto calculado entre a extrema-direita brasileira, que se vê na contingência de ter que lidar com a realidade diplomática, mas sem abandonar a narrativa de conflito”, analisa Fonseca.
Ela ressalta que o discurso de Trump na ONU continam elementos que ecoam as acusações feitas por aliados de Jair Bolsonaro. “A fala de ‘censura’ e ‘perseguição’ é uma linguagem conhecida que alimenta a polarização. É crucial observar que, por trás de um abraço diplomático, permanecem narrativas que desafiam a estabilidade das instituições democráticas”, completa a especialista, defendendo que o momento exige um fortalecimento do respeito à soberania e às forças democráticas no país.
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Informações: GD