Artigo – Entre o copo e o silêncio: suicídio masculino e dependência química em Mato Grosso

O Setembro Amarelo chega todos os anos com uma mensagem clara: precisamos falar sobre suicídio. Mas, quando olhamos para os números em Mato Grosso, uma pergunta insiste em ecoar — por que os homens continuam calados?

Segundo o Ministério da Saúde, os homens representam cerca de 79% das mortes por suicídio no Brasil. Em Mato Grosso, a situação é ainda mais preocupante: dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 indicam que a taxa estadual ficou acima da média nacional, com destaque para municípios como Sinop, Rondonópolis e Cáceres. Ou seja: enquanto o país já enfrenta uma tragédia, no estado esse silêncio masculino tem custado ainda mais vidas.

Esse silêncio não é natural, é aprendido. Desde cedo, muitos meninos ouvem que chorar é fraqueza, que homem “aguenta firme” e que pedir ajuda é sinal de derrota. Essa socialização restrita cria barreiras invisíveis, onde o sofrimento não encontra espaço para ser expresso. O resultado é que, em vez de procurar apoio, muitos homens recorrem ao álcool, às drogas ou ao isolamento.

O problema é que o álcool e outras drogas funcionam apenas como uma válvula de escape — uma tentativa de anestesiar a dor. Mas essa válvula tem limite. Quando a dependência se instala, ela não alivia, apenas amplia o vazio. É nesse ponto que alguns homens, sem conseguir sustentar a própria dor nem a dor que acreditam impor aos outros, podem considerar o suicídio como saída.

Basta observar os serviços de saúde mental de Mato Grosso: CAPS lotados, poucos leitos de internação e longas filas de espera. Enquanto o sistema tenta dar conta, famílias inteiras lidam com o impacto de vidas interrompidas que poderiam ter sido salvas.

Falar de suicídio entre homens, portanto, é falar de saúde mental, mas também de cultura. É reconhecer que precisamos desconstruir a ideia de que ser homem é aguentar sozinho. É lembrar que coragem não está em suportar em silêncio, mas em pedir ajuda e buscar apoio.

No estado, onde o isolamento geográfico, os longos turnos de trabalho e a falta de acesso a serviços tornam tudo ainda mais difícil, o desafio é maior. Mas também é urgente. Setembro Amarelo não pode ser apenas campanha: precisa ser compromisso.

Se você está em sofrimento, ou conhece alguém que está, procure ajuda. CAPS, UBS, RAPS e CTA-SAE estão presentes em Mato Grosso. E, em qualquer lugar do Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo 188. Porque, apesar do silêncio, a vida merece ser ouvida.

Nailton Reis é Psicólogo Clínico com especialização em Neuropsicologia Cognitiva Comportamental, Avaliação Psicológica e Psicologia do Trânsito em Cuiabá-MT
CRP 18/7767

 

Foto: Nailton Reis

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